7.3.06

Realismo



Vale a pena entrar numa relação que se adivinha finita à partida? É melhor aproveitar a felicidade que a vida nos traz no momento ou compensa esperar por alguém que nos encha as medidas?

São as expectativas demasiado altas que nos privam ou as expectativas demasiado baixas que minam aquilo que realmente queremos e nos fazem aceitar algo bonzinho?

Quem tudo quer tudo perde/quem tem esperança sempre alcança: nem o povo se decide. Não há verdades universais.

Banda sonora deste texto: "It's got to be perfect... It's got to be perfect, so many people take second best, but I won't take anything less..."

27 comentários:

Passim disse...

Há uma frase de que gosto especialmente e que gostaria de partilhar:
"O que é nosso está à nossa espera."
E é verdade! Por isso, viva a auto-estima.

/me disse...

De facto é uma frase bem bonita, passim. :)
Viva!

Anónimo disse...

Confesso que, chegado aos 28 anos, já não sei o que esperar duma relação. Perdi a percepção do que é suposto sentir-se, como e com que intensidade.
Como já comentei noutra ocasião em que se discutiu fervorosamente o amor, agora dou por mim a dissecar a maioria dos sentimentos e a deixar de vivê-los empiricamente. Encontro lógicas para tudo e o que antes era uma canção, reduz-se agora a uma pauta com anotações...
De facto, quando falam em expectativas no amor, já não sei bem a que se referem. Consigo entender o conceito de "projecto de carreira" mas não o de "projecto de relação"... Já estive num projecto de relação que terminou ao fim de alguns anos e não quero voltar a experimentar nada parecido. Parece-me infantil mas absolutamente difundido isto de brincar aos namorados... É o que aprendemos do cinema; copiamos-lhe os moldes e perdemos a noção da realidade... No que me diz respeito, só gostava de encontar alguém com quem manter uma relação serena e ligeira, sem "expectar" absolutamente nada, como a que se tem com um melhor amigo. Existem projectos de relação de amizade...?

Enoch

P.S.:...e porque te digo eu tudo isto...??

/me disse...

Enoch, quanto ao Amor sou fundamentalista. E apesar de ter tido uma experiência má nalguns sentidos, ela apenas me reforçou a ideia de que é possível amar e ser amado. De resto, a Passim disse tudo: "O que é nosso está à nossa espera." E pronto, não digo mais para não me tornar insuportavelmente lamechas...

PS: Dizes tudo isto porque é impossível resistir ao charme da Ally McBeal. Ela desarma qualquer um. :)

Anónimo disse...

Lamento, mas a frase da Passim, embora redonda e perfeita, soa-me a idealista, no sentido adolescente do termo.
Ai, desculpem, não quero ser desagradável... É só que, se assim fosse, eu iria de limusina para casa, e não a pé e ferrocarris, como faço cada dia. E não acredito que a minha limusina esteja à minha espera eternamente num stand qualquer...

Enoch

P.S.: Onde se lê "limusina" leia-se "vida", "casa própria", "relação", "auto-estima", "realização pessoal", etc...

/me disse...

Enoch, claro que a frase pode ser lida de várias formas. Eu não acredito que haja uma pessoa que seja "o/a tal", e que esteja destinada a mim.

Mas acho que há algumas pessoas com as quais posso construir algo muito bom. E isso está à minha espera no sentido em que é provável que acabe por encontrar uma pessoa assim. Mas é algo que depende de mim (e não só) e do que construo. Não acho que seja idealismo infantil. :)

big Z disse...

"Vale a pena entrar numa relação que se adivinha finita à partida?" É um questão pertinente, sem duvida!! Mas se formos a pensar assim, acabamos por estar limitar-nos, e a desperdiçar os frutos que podemos colher dessa experiência.
Se essa pessoa nos diz algo e mexe conosco (apesar de se avistar um possível ponto final) porque não arriscar, e tirar proveito de algo que nos pode dar muito prazer, e preencher a nossa vida, nem que seja por alguns momentos. A vida não é complicada, nós é que teimamos em complicar! Alem disso nada é eterno!! Enjoy...

Abraços ;)

Anónimo disse...

Bem, como o pões faz sentido, mas a frase, objectivamente, é uma daquelas muitas expressões falsamente esperançosas que me irritam.
Temo estar a dar uma imagem errada de mim e do que quero dizer... Suponho que também estou numa fase particularmente sensível em alguns aspectos... Passados os 25 anos e vista a minha situação, apercebi-me que a vida pode ser realmente um balde de água fria. Sei que isto soa foleirinho... Mas um dia acordei! Vi que a minha vida já estava!! É isto, não há mais! Estou numa fase absolutamente plana, monótona e previsível. Vivo "from paycheck to paycheck" e não acredito que o que é meu esteja aí à minha espera. Acho que de certa forma mereço o que tenho por falta de esperteza em jogar melhor, mas não acho que isto seja o que o "destino" tinha reservado para mim...
Também não queria ser um "Werther" nestas questões do amor (acho encantador que escrevas "amor" com maiúscula!). Também acredito em amar e ser amado, só não acredito na dinâmica das relações. Acho que as pessoas vêm demasiado cinema (adoro o cinema!) e idealizam demasiado as relações e o próprio sentimento do amor. Eu só queria uma relação descomplicada, sem a pressão de estar a "construir" algo, para utilizar uma expressão tua... Queria conseguir fundir-me noutra pessoa de uma forma tão natural que não se notasse, que não me anulasse... Não queria deixar de ser o D., o melhor amigo, para passar a ser o "namorado". Não queria caminhar amarrado a outra pessoa para todo o lado para desempenharmos os nossos papéis: queria que nos acompanhássemos, lado a lado, para onde o vento nos levasse, enquanto fosse natural. E gostaria de chegar aos 70 anos e celebrar as bodas de ouro com uma pessoa que ainda se interessasse pelo que o D. tem a dizer, consciente da minha individualidade e das minhas diferenças.
Não sei se isto é a relação perfeita mas é a que almejo... e gostaria de pensar que ele está aí à minha espera, mas tenho as minhas dúvidas...

Enoch's a bit sad...

P.S.: Como se faz para conhecer alguém...? À parte das discotecas e bares, onde se cruzam os caminhos e os olhares? Quando à tarde volto para casa costumo vir a olhar para o chão...

P.S.: Se te dissesse o que mais gosto na Ally McBeal ias achar-me a pessoa mas deprimente do planeta...

b' disse...

hoje já postei este comentário noutro blog...

mas acho q vale a pena a repetição :))

111.
Todo o homem de hoje, em quem a estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de charro, ama, quando ama, com o amor romântico. O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe.

Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos.

O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Daniela Mann disse...

Gostei imenso de conhecer este blog! Está genial!
Um abraço,
Daniela.

on disse...

Caro /me,
estás num país distante, tens de produzir rapidamente uma tese. A vida não é dura. Se essa relação te ajudar no curto prazo e a outra parte não estiver a ser envolvida num mal entendido, porque não?
É muito bonito pregar o romantismo. Eu prefiro aplicá-lo.

zibl disse...

Caro /me, permites uma palavras de comentário? A este teu post e àquele a que ele faz um pouco contraponto, da A.M. no assumidamente. É engraçado, sabes, mas a mim os v/ posts não parecem contraditórios, mas sim complementares. Explico o que quero dizer.
A noção de “finitude” (de uma relação, de um amor, de uma vida) entendi-a eu num sentido alargado: finita, perecível, porque tudo o é, não viveremos para sempre, nem sequer seremos “jovens” para sempre…
Eu já tive a experiência de amar uma pessoa que adoeceu e de quem me apresentaram a expectativa de pouco tempo de vida restante. Não deixei de amá-la por isso, pelo contrário, acho eu. Amei-a com desespero até que se desvanecesse o seu corpo, e mesmo depois. Andei numa espécie de sonumbulismo emocional durante muito tempo. Recuperei. Disse a mim mesma que não tornaria a amar alguém assim. Aproximei-me de outras pessoas, algumas das quais permanecem no meu mundo sensível.
Mas não amei “assim” outra vez… durante uns 15 anos. Depois, olha, tornou a acontecer-me. Bem recente, há coisa de um ano. E já vou deixando de ter idade para estas coisas, já ando cá há muito tempo, isso deveria pôr-me a “salvo”… mas quando se ama, passamos a querer salvar-nos… correndo para o lado de onde vem a “ameaça”…
Hoje: não tenho (nem tem ela) já idade que facilite ilusões que há uma eternidade à nossa espera. Temos o que temos, não pedimos mais. Isto, é a minha “noção de finitude”, aquilo que apreciei no post da A.M, aquilo que me tocou.
Neste teu post, fala-me a ânsia que exprimes de totalidade, de perfeição. Querer amar para sempre. Querer fazer as coisas bem feitas, penhor a entregar à pessoa amada. Entendo isso perfeitamente. Sinto isso. Não se tratará exactamente de “entrar numa relação que se adivinha finita à partida”; eu diria assim: “sentindo-me finita e perecível, tendo provas indesmentíveis disso, arriscar amar uma pessoa… for a while”. Porque é sempre “for a while”, sempre. Não estou a falar de temer que a pessoa amada se “vá embora”, isso nem sequer me passa pela cabeça, como pode ela ir embora, se é parte de mim agora? Como poderia, sem ferir-se?
Consegui explicar o que quero dizer? Que, em âmbitos diferentes, gosto do post da A.M., e gosto do teu? Serei oportunista por isso?
Desculpa o tempo que te tomei (e o espaço que gastei aqui); que estejas bem.
~~ marta

/me disse...

On, cada um sabe de si. Se duas pessoas conseguirem retirar felicidade de uma tal situação, desde que não haja mal entendidos, acho óptimo. Mas eu não conseguiria ser feliz assim, ficaria amargurado. Talvez seja defeito meu!

Daniela, obrigado!

b', eu acredito no Amor pelo qual se luta e que se vai construindo. Há muitas relações que abortam antes deste ter tempo de surgir. Pergunto-me se o Bernardo Soares se estaria a referir ao mesmo que eu.

Enoch, o que descreves, o que queres, não pode também ser chamado Amor? E afinal, que gostas na Ally? :D

Big zz, eu não consigo. Sou mesmo complicado. ;)

/me disse...

zibl, obrigado pelo teu comentário. :D
Antes de mais, fico contente que tenhas encontrado alguém a quem ames assim tanto. É muito bom. :)

Eu também seria capaz de amar alguém cuja vida fosse finita. Aliás, todas o são. Mas como no caso que referes, alguém a quem não resta muito tempo. Mas nesse caso, não deixaste de amar. Não foi o Amor que foi finito, mas a vida. Suponho que esse teu Amor permanece para sempre. :)

Gostei muito do teu comentário, que me reconciliou com o comentário no assumidamente. Obrigado! :D

Eu só não conseguiria entrar ou estar numa relação cujos dias soubesse contados, ou seja, em que eu soubesse que uma das pessoas viria a desistir. O investimento que quero fazer é demasiadamente elevado, e não quero conter-me, não posso conter-me nisso. Não posso ser calculista, morreria uma parte de mim!

Um beijo grande!

Anónimo disse...

\me, desculpa intrometer-me, mas parece-me, exactamente por o teu investimento ser demasiado elevado que quando encontrares alguém que o valha (a ti e ao investimento) não vais ter tempo de fazer qualquer pergunta.

Acho, francamente, que o Amor (roubo-te a maiúscula) é muito pouco científico. Nem regras de processos estocásticos funcionam nesse campo.

Lembra-te do poema do Whitman, "When I heard at the close of the day" que o amor é feito de coisas pequenas, o maior cliché, mas todos os poemas vão por aí.

De novo, desculpa intrometer-me, mas acho que estás a precisar é de conhecer alguém sobre quem não precises de escrever a bold. Ou como acaba o poema "(...) and that night I was happy".

Aliás, se ele (não sei pôr isto a bold) lê o teu blog e não se apaixona, então já é mesmo mesmo tempo de lhe tirares o bold. Não fosse eu lésbica!

AR

Anónimo disse...

Gostei do post. Gostei dos comentários. Revejo-me um pouco em todos eles, e ao mesmo tempo em nenhum. Todos procuram a felicidade e o amor, cada um de sua forma. Mas nada é estático. Se um dia esperamos que ele nos bata à porta, no dia seguinte procuramo-lo desesperadamente e activamente. Em 29 anos amei uma vez, acho... Doutra vez, esteve quase lá, mas n chegou. Mas já fui amado. Ou seja, acho que o meu potencial de amar ainda n foi despertado. E isso é que é frustrante, a sensação de ter algo cá dentro que quer sair, mas não sai. Numa relação com fim previsivel... as previsões são apenas isso, podem falhar. Para mim a única atitude é fazer o que o coração nos diz na altura...


Aequillibrium

/me disse...

AR, eu gosto muito que participem no meu blog, e em particular gosto de escrever o que tens a dizer.

Eu já estou, tranquilamente, à procura de alguém. Com ou sem bold, desde que seja alguém que me faça feliz, e me deixe dar-lhe também felicidade.

Aequillibrium, concordo que se pode arriscar, até deve, às vezes. Eu acho que um namoro é algo que conduz ou a um "casamento" ou a uma amizade. É um processo de descoberta, que não tem final conhecido, à nascença. Mas, caso se saiba que não dá para casamento, então eu não quero. :)

Manuel disse...

Olá /me,
Um risco dessa exigência e dessas expectativas demasiado altas é que, querendo evitar as relaçöes que se adivinham finitas, corres o risco de nunca dar oportunidade a que deixem de o ser e se transformem noutra coisa. Quando inicias uma relaçäo, como saber onde vai parar se, à partida, näo te entregas nem confias?
Digo eu, sem pretensöes de certeza alguma... :)

/me disse...

Manuel, quando falo em relações que se "adivinho" finitas, refiro-me àquelas em que se sabe a priori que vão falhar. Sim, porque há dessas. :)
Agora, em qualquer relação se correm riscos! E no fim avalia-se se valeu a pena. Melhor ainda, não acabam. :P

Anónimo disse...

Já sabes o que penso.

Faço minhas as palavras do Enoch:

"Consigo entender o conceito de "projecto de carreira", mas não o de "projecto de relação" ... ";

"... uma relação descomplicada, sem a pressão de estar a "construir" algo, ...".

A impermanência é uma das características do ser. Do amor, em particular. A tua ânsia desrazoável de absoluto inibir-te-á a serenidade e será fonte de sofrimento.

( Se soubesses como gostava de estar enganado na minha previsão ... )

'braços,
ZR.

dcg disse...

Já cheguei um pouco tarde à discussão. Quero só dizer que concordo contigo. Quero continuar a acreditar no amor para sempre, na outra metade que nos completa. Não excluo a hipótese de um dia mudar de posição. Com o tempo muita coisa amadurece.

Tongzhi disse...

Que pena que tenho em "apanhar este comboio" já tão adiantado...
Contudo, apenas quero dar um pequeno "testemunho"... se é que se pode chamar assim.
1 - Faz-me uma certa impressão as pessoas novas que consideram que a sua vida está "decidida". Também pensava assim até que numa idade já "confortável", decidi mudar a vida "de pernas para o ar". Estou a falar de um homem nos 40s com uma vida traçada e confortável, deixar toda a estabilidade e perseguir o sonho de ser feliz com uma pessoa do mesmo sexo.
2 - Por formação, ou deformação, sou um bocado "racional".
Algumas experiências, umas agradáveis e outras menos, fizeram-me traçar alguns princípios orientadores. Um deles era a total indisponibilidade para relações com uma grande "diferença" de idades.
Mas alguém me deu a volta... E ainda bem que o fez...
3 – Retomando a sabedoria popular, termino com um misto de esperança/desafio:

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe!!!

Anónimo disse...

Mandarim:

Começo a identificar certos paralelismos: somos ambos matemáticos; ambos achamos que mudar totalmente a vida lá para o meio dela não tem nada de extraordinário; e ambos achamos que idades podem ser irrelevantes. E - conversa antiga - ambos nos declaramos DONS, e não ERROS, da Natureza.

Les bons esprits se rencontrent toujours.

( Mas ainda nos falta uma discussãozita sobre a Didáctica da Matemática - em que há divergências fundas. )

Zé Ribeiro.

/me disse...

Este blog começa a parecer o "Ponto de Encontro". :D

Anónimo disse...

Este blog tá um espectáculo!

Aequillibrium

Tongzhi disse...

anônimo
Esses paralelismos já eu os conhecia há tempos...
E o facto de em alguns aspectos sermos parecidos pode levar à conclusão que eu tanto quero tirar. Não somos animais raros. Deve haver muitos mais como nós!

Quanto à Didáctica/Metodologia da Matemática é para quando quiseres. Eu não volto as costas a uma discussão dessas... de modo nenhum!

Tongzhi disse...

me e dcg

Obrigado pelas palavras deixadas no meu blog.
Só espero que o meu testemunho possa servir para algo!