16.2.06

Novamente o Amor

Há lugares que se pensam comuns, mas afinal não o são. Noções que se creem universais são entendidas por cada qual à sua maneira. Amor, amizade, liberdade, caridade são coisas diferentes na boca e mente de cada pessoa.

Tem o seu quê de perigoso, esta falta de uniformidade. É que todos falamos e discutimos, tentamos aprender uns dos outros, mas não partindo das mesmas definições, como poderemos chegar seja onde for? O problema, claro, não se aplica só a estas palavras. Em todos os campos da vida - e mais particularmente a política - os desencontros de ideias são chocantes. É grave... Falar distingue-nos dos animais; a capacidade de traduzir sentimentos e ideias em palavras é basilar. Mas se divergimos quanto ao significado das mesmas, toda a retórica e construção intelectual são inúteis.

Cada vez mais entendo o papel de quem repensa conceitos. Só entendendo os mesmos, conhecendo a forma como os vemos e como são vistos por outros, poderemos ter uma base comum de entendimento. Nesse sentido, a última carta encíclica colocou muita gente a pensar sobre o que é afinal o Amor. Urge reflectir, pois todos procuramos Amor, todos fazemos esforços para os encontrar, e muitos nos desencontramos em relações em que cada um tem a sua noção do que é afinal o Amor.

Penso que para muitas pessoas, o Amor é atracção. Não apenas física, mas também psicológica e a outros níveis. O carácter elevado do Amor, para estas pessoas, passa por a atracção não ser somente física. Como se houvesse mais mérito de gostar da personalidade de uma pessoa que do corpo. É tudo o mesmo. Não está aí o verdadeiro Amor, assim mesmo com maiúscula. A atracção é uma base para o mesmo, mas não tem mérito em si. O Amor constrói-se, negoceia-se, dá-se e aprende a receber-se. Mas acima de tudo constrói-se. E isso, de tão óbvio que é, dificilmente se explica. O pior, estou em crer, é que poucos o percebem.

Tantos anos volvidos, e perdura o egoísmo.


E porque o meu texto ficou muito incompleto, o Manuel escreveu algo que eu gostaria de ter escrito: "O amor é uma acção. É cuidado. O estado de enamoramento a que normalmente chamamos amor é, apenas, um sentimento amoroso, um estado emocional. Torna-se amor quando se expressa. Mas também é verdade que o amor tem uma forte componente de contemplação. Contemplação do outro, do amado. Isto é o contrário de muitos amores que não passam de egoísmos, porque o sujeito não contempla outra coisa que a si mesmo, aos seus desejos ou necessidades. Contemplar o outro é descobri-lo e, porque o descobrimos, amamo-lo ainda mais."


Acrescentado mais tarde: Vejam onde a conversa já vai.

20 comentários:

Manuel disse...

Bom texto sobre o amor!
O amor é uma acçäo. É cuidado. O estado de enamoramento a que normalmente chamamos amor é, apenas, um sentimento amoroso, um estado emocional. Torna-se amor quando se expressa. Mas também é verdade que o amor tem uma forte componente de contemplaçäo. Contemplaçäo do outro, do amado. Isto é o contrário de muitos amores que näo passam de egoísmos, porque o sujeito näo contempla outra coisa que a si mesmo, aos seus desejos ou necessidades. Contemplar o outro é descobri-lo e, porque o descobrimos, amamo-lo ainda mais.
Ui... que "amoroso" acordei hoje! :)

Mindful disse...

Duvido que as encíclicas papais sejam fonte de inspiração fiável para alguém. Tão só porque representam um ponto de vista tendencioso e calculado entre muitas outras concepções de igual vigor. O Vaticano não tem nada para me ensinar sobre o Amor. Pelo menos, não sobre aquele Amor que me faz falta e ao qual a prática está vedada à hierarquia eclesiástica. Quem sabe, pratica; quem não sabe, ensina.

De qualquer forma, o Amor é o resultado de um desequilíbrio hormonal temporário. Não há mistério nem influências transcendentais em jogo. Por conveniência antropológica, preferimos tratá-lo em termos das suas consequências macroscópicas em vez da escala molecular. Não deixa de ser bonito das duas maneiras.

/me disse...

Mindful, o homem é bem mais que um animal. Claro que a química tem muito a ver com os nossos comportamentos, mas era bom que a inteligência também fosse decisiva...
Quanto à encíclica, "don't knock it till you've tried it".

Manuel, muito bem falado. Mas pergunto-me quantas pessoas teriam a capacidade de te entender?

Anónimo disse...

Concordo plenamente com essa noção. Identifico-me com ela. Mas o Vaticano não é feito de Homens como nós. Porque não reconhecer "bondade" ás referidas Encíclícas? Se calhar se as lerem, terão algo a aprender...

António

Anónimo disse...

ERRATA ao comentário anterior:
Deve ler-se : Mas o vaticano não é feito de Homens como nós?

A falta que um ponto de interrogação faz....

António

olga disse...

O Amor é complexo e não passa apenas por um desiquilibrio hormonal temporário porque há diferentes formas de Amor e de amar. Falo de mim. Tenho dois filhos e não há ninguém no mundo que ame mais do que eles. E tenho completa consciência q o meu amor por eles n vem do facto de os ter tido dentro de mim. Passa pelo acompanhar, pelo cuidar sucessivo, pelas metas q os ajudo a atingir e ultrapassar, pelas lágrimas, mimos, brincadeiras responsabilidades, cumplicidades que entre os 3 vamos adquirindo. É isso q faz o amor crescer.
O amor fisico é diferente. Há intervenção do sistema hormonal, claro, mas a parte fisica pode ser facilmente esquecida ou substituida. Embora seja importantíssima numa relação (50% digo eu) há uma outra parte que pesa e bastante na balança. Uma vez mais, é o companheirismo, é o participar na relação, a companhia, o humor, resumidamente, a cumplicidade, que só se adquire com o tempo, com o crescimento. :)

Peço desculpa por me ter alongado.

Mindful disse...

Mas a inteligência é também resultado de processos fisico-químicos. Digo eu, que não tenho dimensão religiosa e não entendo o comportamento humano senão, primeiramente, numa base atómica e, depois, nas manifestações macroscópicas complexas das interacções entre essas partículas. Claro que trabalho em termos de sentimentos e valores, mas reconheço que não são mais que fenómenos da Natureza. Tudo tem o significado que lhe damos. Se me perguntares se sinto, respondo que sim. É que nem penso duas vezes, nem sequer imagino átomos metidos ao barulho. Mas é isso que é.

/me disse...

Olga, eu estava mais a falar do amor tipo entre "marido e mulher", e até por isso achei a tua colherada muito bem metida! Não peças desculpas por te alongares, ora essa!!!

Mindful, se concordamos ambos em trabalhar em termos de sentimentos e valores, independentemente de termos evoluído a partir de macacos ou do que quer que tenha sido, diz-me: e quanto ao Amor, que pensas tu? :)

Mindful disse...

Tenho um post sobre isso algures no meu blog, que em parte já transcrevi num comentário daqui um dia destes. :P

Other than that, only ask me if you really wanna know. My neurons need to warm up before I even try talking about it in non-logical terms. :P

Anónimo disse...

Sex and love are about giving, not about receiving; of course, in the end, you have also received - but not because you have asked, much less demanded. No chemicals explain this.

Quanto ao Vaticano, não pretendo ofender olhos leitores, mas arrotadores-de-posta-de-pescada-moral não podem entender o amor.

Zé Ribeiro.

Mindful disse...

António,

Já li algumas encíclicas. Na diagonal, confesso. Não gosto dos floreados, da redundância nem da subjectividade da leitura. A 'bondade' que referes é apenas proselitismo. A Igreja divulga a sua visão na convicção de que é a Verdade. Mas a verdade é relativa, assim como a benevolência. Por vezes faz melhor ao Homem ler um autor secular do que escritos absolutistas.

Anónimo disse...

Não, António, andas distraído.

O Vaticano não é feito de homens ( h ) comuns, como tu e eu, com as suas hesitações, incertezas, dúvidas, aflições, mesmo desesperos, quando postos perante um problema moral bicudo.

O Vaticano é feito de Homens ( H ) que sabem todas as respostas, mesmo quando tu e eu ignoramos as perguntas.

A Igreja, António, já não é mater et magister. Ficou só magister. Et assez piètre, d'ailleurs.

Zé Ribeiro.

Manuel disse...

Muito obrigado pelo destaque...:)
Achas mesmo que é difícil entender o que disse? SE calhar tens razäo. Possivelmente, isso vai na linha que tu mesmo referias: em certos temas, usamos as mesmas palavras, mas é difícil que nos entendamos uns aos outros, porque partimos de pressupostos diferentes...
Mas acho que no que ao Amor se refere, há uma essência que nos une.

/me disse...

Obrigado a ti pelo comentário.
Eu concordo que há algo que nos une: o desejo de sermos amados...

Anónimo disse...

/me:

Não concordo.

O que caracteriza os homens é o desejo de amarem alguém, entregarem-se a alguém, dedicarem-se a alguém, fazerem alguém feliz.

Não é o de serem amados, embora isto venha depois e seja muito gratificante.

É o que disse no meu primeiro comentário.

A ênfase está em amar, não ser amado.

É claro que isto é potencialmente muito perigoso. E, para aumentar a competitividade social, tratam de tentar convencer-nos do contrário: que a ênfase está em ser amado.

Mas um tipo tem que saber trocar-lhes as voltas.

Um abraço,
Ze Ribeiro.

( Eu sei que posso magoar-te com os comentários sobre o Vaticano. Mas pensa que um homem não nasceu para estar calado. 'braço, ZR. )

/me disse...

Zé,

Infelizmente a minha experiência diz-me o contrário. Eu acho que devia ser como dizes, mas acho que não é, pelo menos para muitas pessoas. Talvez em ti isso seja inato, mas para muitos não é.

Temos mesmo que saber trocar as voltas. :)

Quanto aos comentários sobre o Vaticano, não me magoam; sei que não é essa a tua intenção. E, repara, eu tenho muitas críticas a fazer ao Vaticano. Nalgumas coincidimos, noutras não. Mas se eu entendesse discordâncias como insultos, teria uma triste vida. ;)
Abraço!

Anónimo disse...

Óptimo.
Boa Noite.
ZR.

olga disse...

Ahhh... É que vendo a fórmula tudo me parece agora mais simples e lógico! :)

Anónimo disse...

Ná, ná: há ali erros.
ZR.

Mindful disse...

Sim, tem erros mas a ideia passa ;P