Kinsey não colocava a questão em se ser hetero, gay ou bi. Falava antes em ter-se comportamentos (nada a ver com cruzar as pernas ou ter tiques, claro) exclusivamente homossexuais ou exclusivamente heterossexuais ou algo pelo meio.
Assim, pensou numa escala de 0 a 7, onde 0 seria algo como 100% hetero e 7 seria 100% gay. Aplicando esta concepção a si mesmo, ele teria tido classificações diferentes ao longo da sua vida.
Muitas pessoas que se assumem como gay dizem que bi não existe. Concordo com o Kinsey, o que não existe é uma classificação estática e absolutista. Mas, claro, é sempre mais confortável viver num mundo a preto e branco. Incomoda quando os outros não se encaixam nas categorias pré-definidas nos nossos esquemas mentais. A propósito, cito uma citação:
"Because I happen to be gay, the far right expects to keep my personal life a deep, dark secret, while the far left expects me to buy into its entire political platform or risk being designated a "self-hating homosexual." Both groups share, moreover, an abiding devotion to the gay-subculture stereotype. Both would be more confortable with me, in short, if I talked, walked, dressed, and thought in accordance with that stereotype. That would make it easier for the far right to condemn me and easier for the far left to embrace me. The far right wants me to climb back into the closet; the far left wants to force me into another closet."
Assim, pensou numa escala de 0 a 7, onde 0 seria algo como 100% hetero e 7 seria 100% gay. Aplicando esta concepção a si mesmo, ele teria tido classificações diferentes ao longo da sua vida.
Muitas pessoas que se assumem como gay dizem que bi não existe. Concordo com o Kinsey, o que não existe é uma classificação estática e absolutista. Mas, claro, é sempre mais confortável viver num mundo a preto e branco. Incomoda quando os outros não se encaixam nas categorias pré-definidas nos nossos esquemas mentais. A propósito, cito uma citação:
"Because I happen to be gay, the far right expects to keep my personal life a deep, dark secret, while the far left expects me to buy into its entire political platform or risk being designated a "self-hating homosexual." Both groups share, moreover, an abiding devotion to the gay-subculture stereotype. Both would be more confortable with me, in short, if I talked, walked, dressed, and thought in accordance with that stereotype. That would make it easier for the far right to condemn me and easier for the far left to embrace me. The far right wants me to climb back into the closet; the far left wants to force me into another closet."
Por fim, coloco uma questão (se calhar não pela primeira vez neste blog). Porque é que tantos homossexuais adoptam comportamentos que temos por femininos? Será que a falta de modelos (role models) homossexuais terá algo a ver com isso? Afinal, o paradigma é que quem gosta de homens são as mulheres. Logo, se eu gosto de homens, ou sigo o modelo pré-definido ou tenho de construir um próprio, o que é fascinante mas, admitamos, não é fácil assumirmo-nos como órfãos de um paradigma próprio e construir referências do zero.
Claro, esta opinião parte do pressuposto de que o género (gender) e a orientação sexual são duas coisas completamente distintas. Não tomar isso como uma verdade absoluta levanta uma série interessante de questões: o género é determinado pelo que sentimos, ou pelos órgãos sexuais com que nascemos (há que lembrar aqueles/as a quem a natureza prega partidas)? Também se é homem ou mulher, ou também há uma escala? Um homem pode ser feminino e uma mulher masculina?
10 comentários:
Humm, questões fascinantes, mas estou de abalada para Lx.
1) São os comportamentos + a cabecinha, que definem a orientação sexual. Tive uma relação de muitos anos com a mãe dos meus filhos, mas sentia-me atraído: i) por ela; ii) por outras mulheres; iii) por homens.
Só o comportamento não daria conta de mim, já que não petisquei fora da gamela.
2) Pois, há muita gente que diz que bis não existem, quer entre os gays ( que os tomam por homos imperfeitamente assumidos, ou em busca de respeitabilidade ), quer entre os heteros ( que os tomam por heteros transgressores ). Como já disse aqui, bi que declare que gosta de ser "enrabado" - como eu - é "arrumado" como gay e perde toda a respeitabilidade. Bis existem, claro que sim.
3) A citação é esplêndida. Como individualista militante, revejo-me inteiramente nela.
4) Não faço a mínima ideia porque há "bichas" e não me preocupo absolutamente nada com a sua existência: gosto muito "delas". Talvez porque de maneira evidente transgridem as estúpidas fronteiras de comportamento de género socialmente expectado.
5) O género é resultado de uma construção ( um "construto" em linguagem fina ) com base biológica, psicológica, social - mas, essencialmente, uma construção que cada um faz por sua conta. Não há qualquer relação unívoca nem com sexo nem com orientação sexual. Por exemplo, eu: i) sexo - masculino; ii) orientação sexual - bi; iii) género - basicamente masculino, mas com pormenores que desorientariam um classificador; ainda outro dia, um puto de 20 anos, gay, me disse que era impossível olhar para mim e não reconhecer alguma gayness; e fiquei muito contente.
A infinita variedade dos seres humanos é das melhores prendas que temos.
E bom fim de semana a todos.
ZR.
ZR, antes de mais, um abraço. :)
Hoje estou assim, apetece-me começar com o abraço e só depois partir para a conversa, embora tenha de ser breve.
Quanto ao ponto 4, acima de tudo, gosto que as pessoas sejam elas próprias e sejam felizes. :)
De resto, cito-te: "A infinita variedade dos seres humanos é das melhores prendas que temos."
Nota: Retirei a palavra "bichas" do texto, não para ser politicamente correcto, mas porque não quero ficar refém do peso pejorativo da mesma, quando não estou a emitir um qualquer juizo de valor. :)
Esta não acrescentava nada ao texto, só o podia prejudicar.
A diversibilidade e variabilidade são, fascinantes!
Faz-me lembrar o restaurador. Lembram-se?
"Um preto de cabelo loiro? Um branco de carapinha?"
E depois? Qual o problema?
Um homem feminino que gosta de mulheres?
Uma mulher masculina que gosta de homens?
E porque não?
Um homem que gosta de mulheres masculinas?
Tudo é possivel.
Quanto ao kinsey, já tinha uma opinião parecida com a dele, mesmo antes de a conhecer. Se bem que eu tenho alguma dificuldade em aceitar algumas classificações, embora compreenda que sejam necessárias para um estudo cientifico das situações.
Mas como a minha vida pessoal nada tem de cientifico, nem sei bem o que sou.
Gay? Bi? hetero? Who cares...
Sou..
Eu.
;)
Sorry /me...
ABRAÇO!!!
Eu cada vez mais acredito numa apróximação dos sexos, mulheres mais masculinas e homens mais femininos. Ora vamos começar pelas mulheres (o cavalheirismo nunca fez mal a ninguem, e NÃO É a mm coisa q machismo), asw mulheres cada vez mais ocupam o lugar masculino, cada vez mais ocupam lugares de chefia, desempenham tarefas que lhes exige ser mais dedicadas à profissão, nem sempre é práctico andar de salto alto, de vestido, cabelo comprido, não podem mostrar a sua sensibilidade pois na gd maioria dos casos essa sensibilidade ainda é confundida como um sinal de fraqueza.
E agora os homens ;) : cada vez mais relaxados, pq c esta hist dos direitos iguais, se elas se arranjam e usam cremes p cuidar da pele, nós tb podemos, pq nós, e todos sabemos q é verdade, uns + outros - preocupamo-nos c a pele oleosa, c rugas, c borbulhas, c a pele seca...
Elas descobriram q se se fizerem de dificeis nós corremos atrás, ora juntando a este facto de todos contermos em nós um mínimo pingo de vaidade, os homens aproveitaram a "oportunidade". Quer seja por elas, pelos próprios, e noutros casos por eles.
Assim o homem fica mais parecido c a mulher e a mulher c o homem. Algumas espécies animais chegaram mm ao cumulo de suprimir um dos sexos (visto q o sobrevivente "acumulou" os dois sexos e consequentemente a auto-capacidade de reprodução).
Acho q daqui a uns "valentes" anos o termo *andrógeno* será mais comummente aplicado ao nosso vocabulário.
(A minha opinião ñ é mt favoravel a esta teoria. Mas há certas coisas que um homem ñ tem poder sobre. Os Homens sim, o homem ñ.)
Caro /me,
Olá! Beijinhos. (já aqui ao início, que tenho medo que não leias até ao fim).
K. interessou-me (and still does) bastante. Inovador em algumas formulações, apesar das controvérsias em redor da validade dos inquéritos. Abriu caminho a alguma investigação sobre a sexualidade, e - directa ou indirectamente - ajudou muita gente, a ter uma imagem de si mais próxima do seu próprio corpo, menos mascarada das imposições do "superego social"…
Aquilo que ele estudou e elaborou e que tu descreves (bem) como: "K. não colocava a questão em se ser hetero, gay ou bi. Falava antes em ter-se comportamentos (…) exclusivamente homossexuais ou exclusivamente heterossexuais ou algo pelo meio" foi uma machadada forte no preconceito que via (e vê) a homossexualidade como "aberração"; e "rara". Ele investigou, inquiriu, depois avançou de chancas: rara?? don't make me laugh… muito mais gente do que vocês imaginam o pratica, mesmo gente que mantém uma fachada totalmente "hetero"… E a noção de escala variável, é até divertido imaginar como isso, nos anos 60, foi revolucionário (no verdadeiro sentido da palavra)! Muitas noções que hoje as pessoas "informadas" têm por "evidências", começaram o seu caminho como ideias a partir de Kinsey. Idem para as práticas sexuais: havia mais orações além das que o missionário ensina, por assim dizer…
Salientou também a variação da escala ao longo da vida do mesmo indivíduo. Não apenas o caso mais evidente de alguém que "tende" para pessoas do mesmo sexo, mas durante algum tempo tenta ser "normal".
Também os casos de pessoas a quem os matizes da vida fazem DE FACTO deslizar de uma orientação a outra… Ou inclusive ter períodos de experimentação, "deixa cá ver o que dá". Coisa que reputo muito mais frequente em mulheres do que em homens, a noção de "experimentação", mas posso estar enganada. Confesso que sempre tive uma… pequenininha inclinação para o… derailment of straights, daí que seja ultra-atenta aos sinais e indícios de falhas nos carris; de um ponto de vista puramente académico, claro, tudo a bem da ciência, ou lá como se lhe queira chamar. Disclaimer: Mas isto era antes, que agora sou muito certinha! ;)
Alguns dizem que a teoria de K. desfaz a noção de "orientação sexual" exclusiva. Não acho isso. Há pessoas de orientação sexual exclusiva. Eu acho-me -- tenho a pretensão de conhecer-me bem, pode ser enganador -- exclusivamente atraída para my own gender, por mais que goste de um homem não me passa pela cabeça (nem por nenhum lado) a vontade de fazer amor com ele - desculpa lá a expressão, sou cota, ok?
O comentário vai longo (e não tenho a desculpa da fundamentação teórica…)… Fica bem, /me. Adverte-te! Ou diverte-te...
Só para pegar num aspecto que levantaste, a ausência de role models. É bom e é mau. É bom, porque à partida as relações são mais livres e desformatadas. Não há a necessidade de cumprir rituais ditos 'castradores' ou de seguir o modelo namoro-à-séria-que-termina-inevitavelmente-em-casamento-e-filhos, por exemplo. Podes viver com o teu parceiro toda uma vida ou fazeres uma vida de one night-stands. À partida tudo é possível. À partida...
Mas também é mau porque essa ausência destabiliza muito boa gente. É assumido por uma larga fatia de vivalmas, inclusivamente por muitos gays, que homossexualidade = 'promiscuidade' (entre inverted commas, porque apesar de tudo o meu liberalismo obriga a não ser censório no uso da expressão :P) e que assim nascemos, assim morremos. E há gente que está no seu direito de não querer isso ou que, passada a idade de querer isso, quer algo mais mas está presa a um preconceito que é imposto pela sociedade aos gays e - embora cada vez menos, felizmente - por alguns gays a outros gays.
Posto isto, os que mais criticam a tendência para a 'promiscuidade' são aqueles que se opoem mais veementemente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, que pode ser um horizonte para o estabelecimento e crítica das nossas relações. O casamento hetero, ora é tido como o culminar de uma relação, ora é considerado um saco sem fundo para um sem número de diferentes tipos de relações, ora é olhado como o bastião da família tradicional, ora é tido como "espécie em vias de extinção", ora é deitado abaixo como farsa. Mas existe e é um ponto de partida. Acho que o alargamento do casamento a gays e lésbicas - e para este efeito pouco importa que haja pouca gente realmente interessada em casar; estou a pensar na visibilidade das relações homo no mainstream, p.e. - pode trazer muita gente de um ghetto onde só está porque foi lá enfiada.
E isto tudo para - a partir deste piqueno exemplo - dizer que em minha opinião isto é tudo muito cultural.
/meinho:
O blog é teu, tiras e pões o que quiseres.
Mas não é correcto tirar "bicha" do texto por causa do peso pejorativo da palavra.
A solução é assumirmos os termos pejorativos - mesmo se carregados de desprezo - que inventaram para nós e usá-los sem vergonha. É preciso perceber que sem a nossa vergonha perdem a eficácia de discriminação e exclusão e tornam-se termos descritivos, quase neutros.
Por exemplo, eu afirmo-me paneleiro - em TODAS as circunstâncias em que o problema se põe. A desorientação subsequente das pessoas põe-me logo numa posição favorável para perguntar: "Mas não mordo! Incomoda-@?". E, quase sempre, as coisas ficam por aqui.
Bjks.
ZR.
~eu sou bi. como em tudo. :)
agora a sério, eu penso que todos nós somos duais e isso passa tb pela sexualidade .
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