É
difícil explicar o porquê de tantos
preconceitos relativamente à homossexualidade. Um preconceito, por o ser, não se desmonta apenas racionalmente, mas com tempo e persistência. Este, porém, parece estar tão fortemente enraizado que é razão suficiente para pais expulsarem os filhos das suas vidas, amigos deixarem de se falar ou até pessoas serem assassinadas.
Historicamente, períodos em que a homossexualidade foi tolerada alternaram com períodos de forte repressão. Sabe-se isso apesar de registos históricos terem sido sistematicamente "corrigidos", poemas homoeróticos sofrido alterações de géneros ou enciclopédias conterem ainda hoje mentiras deliberadas.
Há uma diferença fundamental entre os homossexuais e outros grupos que foram sendo perseguidos, como os judeus. No caso dos últimos, estes viviam em comunidades bem identificadas, e a sua história e cultura foi sempre sobrevivendo. Os homossexuais, porém, viviam "entre os outros", sem se agruparem em bairros específicos e sem facilidade de se identificarem entre si. Nunca existiram enquanto sociedade organizada, sendo que ainda hoje têm de redescobrir toda uma série de coisas por si. Não têm pais a ensinar-lhes as tradições do grupo, como os judeus. Foi assim sendo bem mais fácil apagar a história da homossexualidade, e fazer parecer a cada homossexual que está isolado e é uma aberração.
É duro quando se ouve que por
aquele ser
maricas,
panasca,
roto ou paneleiro, é por consequência depravado, primário, doente, pervertido. Ouve-se isso dos pais, dos amigos, dos irmãos. Basta aparecer uma parada de
gay pride na televisão (que também reforça imenso os preconceitos) para que se ouçam desejos de mortes e torturas para todos os
sodomitas. Depois vêm estatísticas a dizer que entre os adolescentes que se
suicidam, uma enorme percentagem têm diferenças de orientação sexual. A
escolha de não reprimir a sexualidade parece ter o custo de se ser um monstro. E depois, ainda há quem argumente que os homossexuais são doentes mentais dizendo que sofrem mais depressões e se suicidam mais que os demais.
Up yours.
A solidão, a dor, a confusão, de quem assim descobre em si uma diferente orientação sexual são enormes. Quando os próprios familiares se referem (sem o saber, é certo) a eles como anormais, que consequências isso não terá?
A oportunidade histórica que surge agora para os homossexuais tem de ser agarrada com as duas mãos. Já antes houve períodos de abertura que culminaram em repressões ainda maiores, mas o processo agora parece ser irreversível. Sê-lo ou não passa por todos; terá alguém o direito a se calar quando outras pessoas, aliás racionais, debitam preconceitos como se nunca tivessem usado o cérebro?